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Dalton Trevisan, contista singular

O conto é um gênero literário conhecido entre os brasileiros desde a primeira metade do século XIX. No Romantismo, adquire força e, talvez o mais célebre de todos, Noites na Taverna, de Álvares de Azevedo, seja um bom exemplo desta época. No Realismo, Machado de Assis é o exemplo mais acabado de contista em língua portuguesa, porque, com ele, o gênero chega à perfeição em todos os aspectos.

Do ângulo dramático, tudo no conto leva para o mesmo ponto. O conflito é único. A história é única. São poucas as personagens. Sua estrutura não permite divagações e digressões. Sua linguagem é comumente objetiva, as metáforas são agudas, a ação se faz muito presente e o diálogo é um recurso muito utilizado. A descrição é mínima e se atém ao rigorosamente indispensável. A trama é sempre linear e o leitor “vê” os fatos se sucederem. No foco narrativo predomina a terceira pessoa com o autor onisciente e onipresente. Há unidade de tempo e de espaço. Estruturas narrativas mais elaboradas ficam por conta das novelas ou, atingindo um universo de complexidade e experimentalismo sem limites, temos os romances. Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, Ulisses, de James Joyce, e A Montanha Mágica, de Thomas Mann, são exemplos desta complexidade e profundidade a que pode chegar uma escritura.

Na geração dos últimos 50 anos, Dalton Trevisan – nascido em 1925 – ocupa lugar de destaque na literatura de língua portuguesa, a partir da publicação de Novelas Nada Exemplares, em 1959, por inaugurar um novo jeito de escrever contos, rompendo os paradigmas tradicionais acima. Usa de exagerada economia de linguagem e técnicas de sugestão que levam o leitor à co-autoria do texto. Sobre ele disse Wilson Martins, em Pontos de Vista: “Em D.T. a intriga é desvendada por fragmentos do diálogo, não pela narrativa nem pela descrição... o seu texto não deve ser ‘desconstruído’, mas, ao contrário, construído, pois nessa arte de síncopes e elipses nosso espírito se vê desafiado a contribuir...” DT não se encaixa nos moldes tradicionais, mesmo em suas narrativas mais longas. Muito menos tradicional é em suas últimas experiências como o livro “Ah, é?” onde se condensam 55 ilustrações e 187 minicontos em apenas 132 páginas. A título de exemplo, vejamos dois minicontos deste livro:

“Na cama o João vem pra cima de mim. Uma transa lá entre ele e minha perna, não estou nem aí.” (conto 16)

“Daí perguntou qual era o meu nome, Joana eu disse, quantos aninhos você tem, oito eu disse, você quer uma boneca de cachinho, quero eu disse. Ele prometeu todas as bonecas de cachinho se eu não gritasse.” (conto 33)

O cidadão do submundo é a sua matéria, não no que tem de comum, mas no de mais sórdido, compulsivo e obsessivo a revelar todas as suas taras. “Seus heróis, quase sempre são instrumentos de obsessivas compulsões de sexo ou de frustradas ânsias humanas... DT narra de maneira direta, seca, com extrema economia verbal. Sabe articular habilmente a linguagem coloquial e a literária, valendo-se amiúde de pungente intensidade...” disse José Paulo Paes.

Há contos antológicos de Dalton como Uma vela para Dario, Cemitério de elefantes e Onde estão os Natais de antanho? nos quais a degradação social e os dramas pessoais são tratados de forma impiedosa e sem concessão. No primeiro conto, DT narra a história de um homem, Dario, que teve um ataque (epiléptico?) no meio da rua e não foi socorrido pelos transeuntes. Seus objetos pessoais, um a um, vão desaparecendo: cachimbo, guarda-chuva, sapatos, alfinete da gravata, paletó, relógio, aliança... Morre e “um menino de cor e descalço veio com uma vela (que) apagou-se às primeiras gotas da chuva que voltava a cair.”

No segundo conto, as raízes do velho ingazeiro perto do rio, no centro da cidade, são o cemitério de “elefantes” – bêbados se juntam para morrer. Suas pernas paquidérmicas, pele avermelhada do rosto inchado e narizes proeminentes dão-lhes aparência de elefantes que se alimentam das folhas, no caso, de ingás que caem de maduros.

O terceiro conto trata da angústia e solidão aguda de um certo João distante da família na véspera de Natal. Para fugir do desespero, vai a um cineminha suburbano, onde se encontra com outros párias sociais que se identificam com o drama do herói de um filme classe B. O sofrimento deste João se contrasta com a euforia dos bêbados, anunciada por gritos e buzinaço do lado de fora.

É comum autores tomarem da realidade e construírem sua ficção. DT parece fazer o contrário: usa das armas da ficção para despejar dentro de seus contos o mais sórdido da tragédia humana, de tal forma, que as mazelas do homem se apresentam mais contundentes e piores do que são.

O leitor se sente agredido pelo mundo-cão retratado por DT. Tomado de estranhamento, não sai o mesmo depois de ler sua obra. DT, criador de personagens comuns e fronteiriças que vivem no limite do cotidiano e da tragédia, é um caso único na literatura de língua portuguesa.

ARL - Academia Ribeirãopretana de Letras

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